Alexandre Torres era o zagueiro que eu dizia ser, nas brincadeiras de futebol de 94, quando ele conquistou o Tri do Carioca pelo Vasco. Eu dava um carrinho na bola de gritava “tiiiiiira, Torreeees!” É o meu sobrenome, mas eu falava isso por causa do dele. Encontrei-o por acaso e pedi a foto, além de contar que fui “proibido” de pagar um táxi em Guadalajara graças à idolatria do motorista mexicano pelo pai dele, o Capita de 70: “Um conterrâneo de Carlos Alberto Torres não paga no meu táxi”, ouvi na terra da tequila. Obrigado, Alexandre. Você é um dos responsáveis pela minha paixão por futebol!
Mas que história é essa de não pagar táxi no México?!?!?
Janeiro de 2011. Parti para o México com a intenção de passar os meus 30 dias de férias viajando pelo país. Depois de alguns momentos na Cidade do México, a Capital que eles chamam apenas de DF, uma viagem de 7h30 de ônibus me levou a Guadalajara.
Eram dois os meus interesses principais na cidade: conhecer as plantações de agave com as fábricas de tequila e mergulhar no futebol local. Em Guadalajara, fica o Estádio Jalisco, onde a Seleção Brasileira disputou cinco dos seis jogos do Tricampeonato. Só trocou de local para a Final, disputada no Azteca.
Peguei um táxi no hotel (não existia aplicativo de transporte) e pedi para me levar até o Jalisco. O motorista, que já demonstrava enorme simpatia, disse que estava feliz por receber brasileiros em sua terra e informou que a corrida seria rápida. Passados 20 minutos, lá estava o portão do imponente monumento futebolístico, inaugurado em 1960, dez anos antes de sediar a Copa do Mundo.

Pedi ao taxista para aguardar porque, se eu não conseguisse entrar, tiraria apenas algumas fotos do lado externo e retornaria com ele. Fui até a entrada e nada. Não havia tour ou visitação guiada oficial. Registrei umas imagens e já estava caminhando em direção ao táxi, quando o condutor ligou o pisca-alerta, saiu do carro e veio até mim: “Vamos lá que você vai entrar”.
Fomos, novamente, ao portão e ele começou a bater palmas e gritar por alguém. Os berros trouxeram um funcionário do estádio, que nos atendeu e explicou que não havia como entrar ali a não ser numa partida do Atlas, um dos clubes da Liga MX, ou da Seleção Mexicana. “Como não?!?! Isso tudo aqui só é conhecido por causa da Seleção Brasileira. Os brasileiros merecem entrar”, contestou o taxista, que insistiu tanto que ganhou na lábia.
Entramos e ganhamos um recorrido básico pelo Jalisco. Arquibancadas, tribunas de imprensa e de honra, e áreas de circulação. Eu não precisava de mais do que isso. Muitas fotos e conversas sobre a Copa de 70 ditaram o ritmo do rolé. Agradecido, presenteei o funcionário com uma camisa e voltei para o táxi com o, agora, amigo mexicano.

Assim que entramos no veículo, olhei para o taxímetro nem dava mais para ver o valor do serviço. O espaço para os números havia sido superado. Eu sabia que aquilo me custaria mais de 300 reais, convertendo os pesos mexicanos, mas não tinha motivo para reclamar. Eu havia entrado no Jalisco graças ao cara e pagaria sem problemas.
Retornamos ao hotel (mais pesos mexicanos somados). Na calçada, eu perguntei quanto devia e a resposta me deixou no chão. Calma, ele não falou 2 mil reais. Ele disse: “Nada”. Eu retruquei: “Como? Preciso saber o valor para te pagar.” E ele continuou: “Um conterrâneo de Carlos Alberto Torres não paga no meu táxi. As melhores lembranças que tenho do meu pai são da Copa de 70. A gente ia para a porta do Jalisco e esperava os brasileiros saírem para entrar na festa”.
Eu tinha pouco o que fazer, além de agradecer em todos os idiomas possíveis. Dei a ele a camisa do Brasil que eu tinha e guardei para sempre comigo essa e outras amostras da paixão que o povo mexicano tem pela Seleção mais vitoriosa da história do futebol.



0 Comentários