Na tarde desta quarta (21), Julio Casares comunicou em suas redes sociais que não ocupa mais a presidência do São Paulo.
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A crise política no São Paulo teve um capítulo importante na última sexta-feira: numa noite marcada por protestos dos torcedores contra Casares, o agora ex-dirigente perdeu a votação no Conselho Deliberativo do clube, após 188 votarem a favor à 45 contra do seu impeachment.
Dessa forma, Casares foi imediatamente afastado do cargo e o processo de confirmação do impeachment seria votado pela assembleia dos sócios do São Paulo. No entanto, com a renúncia do ex-presidente, a assembleia não vai mais acontecer.
Nesse sentido, o vice e interino Harry Massis Junior, de 80 anos, assume o cargo até o fim do mandato, em dezembro de 2026.

Carta de renúncia de Julio Casares: na integra
“Ao longo de minha trajetória à frente da Presidência do São Paulo Futebol Clube, atuei com absoluta seriedade, firmeza, responsabilidade e compromisso com a defesa da instituição, sempre orientado pelo respeito à sua história, à sua grandeza e à sua torcida.
Nos últimos meses, o clube passou a viver um ambiente de intensa instabilidade, marcado por ataques reiterados, narrativas distorcidas e pressões externas que extrapolaram o debate institucional legítimo.
O que se iniciou como versões frágeis e boatos foi sendo reiteradamente reproduzido, amplificado e, gradativamente, tratado como verdade, mesmo sem a apresentação de fundamentos consistentes ou provas robustas.
Formou-se, assim, um contexto de grave contaminação do debate, no qual ilações passaram a ocupar o lugar dos fatos e suposições foram apresentadas como certezas, em um processo que, aos poucos, transformou versões construídas em verdades aparentes.
Não afirmo, neste momento, autoria, métodos ou responsabilidades específicas, até porque tais questões devem ser devidamente apuradas pelos órgãos competentes. Contudo, é impossível ignorar que houve articulações de bastidores, distorções deliberadas e uma trama política ardilosa, marcada por interesses, traições institucionais e expedientes incompatíveis com a história e os valores do São Paulo Futebol Clube — fatos que o tempo e a história haverão de registrar.
Esse cenário afetou profundamente a governança do clube e, de forma absolutamente inaceitável, ultrapassou os limites da esfera institucional, alcançando minha família e minha vida pessoal.
Não renunciei anteriormente porque entendi ser meu dever exercer, até o fim, o direito à ampla defesa e ao contraditório.
Enfrentei esse processo de maneira direta, presencial e com dignidade, mesmo diante de um ambiente já contaminado por narrativas previamente construídas.
Na prática, a manifestação realizada na tribuna foi o único espaço efetivo que me foi concedido para apresentar minha defesa, em um rito sumário que, ao meu juízo, restringiu a necessária produção de provas e o pleno esclarecimento dos fatos.
A decisão tomada por este Conselho encerra um processo de natureza política.
Respeito essa decisão, ainda que dela discorde, e reafirmo, com absoluta convicção, que jamais pratiquei qualquer irregularidade.
Minha renúncia não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações que me foram dirigidas.
Diante da continuidade desse ambiente, da necessidade de preservar minha saúde e, sobretudo, de proteger minha família de ataques e ameaças gravíssimas, bem como para evitar que essa disputa política continue a prejudicar o time de futebol e o ambiente esportivo do clube, apresento minha renúncia ao cargo de Presidente, com efeitos a partir desta data, antecipando, inclusive, o exercício do direito estatutário de aguardar a Assembleia Geral.
Faço questão de registrar que deixo um clube esportivamente estruturado, com um time competitivo, que voltou a disputar decisões, chegou a finais e conquistou títulos de grande relevância. Destaco, de forma especial, a conquista da Copa do Brasil de 2023, título inédito e histórico, que simboliza o trabalho sério, responsável e comprometido desenvolvido ao longo da gestão.
Esse desempenho é fruto do esforço conjunto de atletas, comissão técnica e profissionais do clube, aos quais manifesto meu respeito e confiança.
Tenho absoluta convicção de que seguirão honrando essa camisa e lutando por títulos, com o apoio da torcida e da instituição.
Meu afastamento também tem como objetivo permitir que eventuais apurações ocorram de forma ampla, técnica e isenta, sem qualquer alegação de interferência, para que a verdade possa ser plenamente buscada e alcançada.
Reitero, por fim, minha certeza de que o São Paulo Futebol Clube é maior do que qualquer cargo, circunstância ou narrativa construída.
Ao São Paulo Futebol Clube, amor de infância e da minha vida, jamais renunciarei. Renuncio, sim, ao ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos e tentaram manchar trajetórias, biografias e a própria história do clube.
Despeço-me com respeito, gratidão e amor permanente por esta instituição, que sempre honrarei.
Júlio Casares“
Gestão Casares
Inicialmente, Julio Casares começou seu mandato no dia 12 de dezembro de 2020, após vencer a eleição para o triênio 2021/2023. No primeiro ano, em 2021, o São Paulo, sob o comando de Hernán Crespo, conquistou o Campeonato Paulista. Com o título, o clube encerrou um jejum de 16 anos sem vencer o Estadual.
No ano seguinte, a equipe treinada por Rogério Ceni chegou a disputar os títulos do Paulista e Sul-Americana. Apesar disso, foi vice em ambas as situações contra Palmeiras e Del Valle, respectivamente. Em 2023, o São Paulo conquistou o primeiro título de Copa do Brasil com protagonismo de Lucas Moura. E Casares foi reeleito para o triênio 2024/2026.
No entanto, o título da Copa do Brasil custou caro para o clube. Nesse sentido, o clube contratou atletas de impacto que não trouxeram retorno esportivo, como James Rodríguez e Oscar. Paralelamente, a diretoria recusou possíveis vendas de jogadores como Pablo Maia e Rodrigo Nestor.
Dívidas, polêmicas e saída
Dessa forma, a dívida do São Paulo saltou de R$ 635 milhões de 2021 para R$ 968 milhões em 2024. Assim, com o desequilibrio financeiro, o clube se viu obrigado a mudar a rota a partir da criação do Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). Desde então, a gestão adotou a prática de contratações sem custo, como as chegadas de Rafael Tolói e Rigoni.
Em 2025, a temporada decepcionante aumentou a tensão da torcida contra a gestão Casares. A insatisfação agravou pela venda de jogadores da base a preços abaixo do mercado. Além disso, a denúncia da venda clandestina de um camarote no Morumbis, no fim do ano, foi o catalizador da crise política do clube.
A Polícia Civil abriu inquéritos para apurar supostas irregularidades no departamento de futebol do São Paulo. Ao mesmo tempo, a autoridade policial investiga as contas bancárias do clube e de Julio Casares, em meio à repercussão do caso do camarote. Por exemplo, a Polícia investiga o porquê do recebimento de R$ 1,5 milhão por depósitos em dinheiro nas contas de Casares. A outra investigação tenta entender a razão de 35 saques da conta corporativa do clube entre 2021 e 2025, totalizando R$ 11 milhões.
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